Codependência: Quando cuidar dos outros nos afasta de nós próprios

Há pessoas que parecem sempre “dar conta de tudo”.

São aquelas que resolvem problemas, organizam, antecipam necessidades, dão conselhos, evitam conflitos e acabam muitas vezes por sentir que estão a carregar mais do que os outros nas relações.

Por fora, isto pode parecer competência, responsabilidade ou até amor.

Por dentro, pode existir exaustão, ressentimento e uma sensação constante de “tenho de me ocupar de tudo”.

A isto chamamos, muitas vezes, codependência. Não sabia?

                     Eu passo a explicar.

O conceito de codependência tem sido alvo de debate ao longo dos anos e nunca existiu um consenso absoluto sobre a sua definição.

Inicialmente, o termo foi utilizado sobretudo para descrever os padrões relacionais observados em familiares e parceiros de pessoas com dependências (álcool, drogas ou outros comportamentos aditivos).

Mais tarde, passou também a ser associado a pessoas que tinham dificuldade em sair de relações disfuncionais ou abusivas.

Atualmente, alguns autores e terapeutas do trauma propõem uma compreensão mais ampla e diferente deste conceito.

Surge a expressão “codependente altamente funcional” para salientar a tendência de pessoas competentes, responsáveis, cuidadoras e aparentemente independentes, que organizam, resolvem, antecipam problemas, ajudam toda a gente e raramente pedem ajuda para si próprias que, muitas vezes, não se identificam com o termo e, na verdade, costumam pensar exatamente o contrário: “os outros é que dependem de mim”.

Contudo, o que caracteriza este padrão não é a dependência visível dos outros, mas a dificuldade em separar aquilo que lhes pertence daquilo que pertence aos outros, acabando por investir tanta energia no bem-estar alheio que se afastam das próprias necessidades, emoções e limites.

Nesta perspetiva, a questão central deixa de ser:

“Porque é que preciso tanto dos outros?” e passa a ser:

“Porque sinto que tenho de carregar tanto os outros?”


O que é a codependência?

A codependência não é simplesmente cuidar de alguém ou ser empático.

Isso é algo saudável e essencial em qualquer sociedade.

É, sim, um padrão em que a pessoa fica excessivamente envolvida na vida emocional, nos problemas e nos resultados dos outros, muitas vezes em detrimento de si própria.

Isto pode incluir:

  • Sentir-se responsável pelos sentimentos dos outros
  • Tentar resolver problemas que não lhe pertencem
  • Antecipar necessidades antes de serem expressas
  • Dar conselhos sem que tenham sido pedidos
  • Dificuldade em tolerar o desconforto do outro sem agir
  • Colocar o bem-estar dos outros acima do próprio

Na base, existe muitas vezes uma dificuldade em distinguir:
o que é meu e o que é do outro?


Será que este padrão está presente na minha vida?

A codependência pode ser difícil de reconhecer porque muitos destes comportamentos são valorizados socialmente e até confundidos com responsabilidade ou cuidado.

Pode ser útil parar um momento e refletir:

  • Estou a ajudar porque quero ou porque sinto que devo?
  • Passo muito tempo a preocupar-me com os problemas dos outros?
  • Sinto ansiedade ou desconforto quando não estou a ajudar alguém?
  • Dou conselhos ou soluções sem que me peçam?
  • Tenho tendência a assumir responsabilidades que não são minhas?
  • Fico mais envolvido nos problemas dos outros do que nos meus próprios?
  • Sinto que as minhas relações ficam desequilibradas (dou mais do que recebo)?
  • Tenho dificuldade em receber ajuda?
  • Sinto-me frequentemente exausto, mesmo estando “a ajudar”?

Quando o cuidado deixa de ser cuidado

Cuidar é saudável. Mas na codependência, o cuidado transforma-se frequentemente em controlo disfarçado de ajuda.

Uma pergunta simples ajuda a perceber isto:

“Quão depressa o problema do outro se torna meu para resolver?”

Quando isto acontece de forma automática, pode surgir um padrão repetitivo e automático:

a pessoa ajuda, resolve, orienta… mas o outro não muda ou não segue o que foi sugerido.

E isso gera frustração, cansaço e ressentimento.

Muitas relações ficam presas neste ciclo:

eu faço, o outro não faz, logo faço mais, insisto e sinto-me mais exausto.


Porque é que isto acontece?

Este padrão não surge por acaso.

Muitas vezes tem raízes em experiências precoces, onde a pessoa aprendeu que precisava de:

  • ser “boa”, responsável ou exemplar
  • antecipar problemas para evitar conflito ou rejeição
  • cuidar emocionalmente dos outros para manter ligação
  • assumir um papel de “quem resolve” dentro do sistema familiar
  • ou assistiu alguém a fazer isto

Ou seja, a sobre-responsabilidade pode ter sido uma forma inteligente de adaptação.

O problema é que aquilo que foi útil na infância pode tornar-se limitador na vida adulta.


Empatia saudável vs empatia que nos esgota

O psiquiatra Frank Anderson fala sobre a diferença entre empatia compassiva e aquilo a que chama, de forma simples, “empatia tóxica”.

Na primeira, a pessoa consegue estar com o outro sem se perder de si; na segunda, sente-se responsável por resolver o que o outro sente.

Na codependência, existe frequentemente uma confusão entre cuidar e carregar.

Se ajudo porque gosto, posso e tenho capacidade então eu estou a cuidar; se não consigo fazer de outra maneira, é um automatismo que me impele a resolver pelo outro e tenho medo do que possa acontecer se não ajudar então é algo que eu estou a carregar.

E geralmente, é algo que pertence ao passado.

O impacto nas relações

Este padrão pode criar relações desequilibradas:

  • Uma pessoa assume o papel de “resolver tudo”
  • A outra pode ficar mais passiva ou dependente
  • A intimidade real diminui, porque há menos espaço para responsabilidade partilhada, real transparência e resolução honesta dos problemas

Curiosamente, quanto mais alguém tenta “ajudar”, mais pode estar a impedir o outro de crescer ou de se responsabilizar pelos seus próprios problemas.

E, com o tempo, surge uma sensação difícil: “ninguém faz isto como eu faria”.


O papel das emoções e do controlo

Na base da codependência está muitas vezes uma tentativa de reduzir desconforto interno.

Quando o outro sofre, algo dentro de nós ativa-se e torna-se difícil “não fazer nada”.

Por isso, ajudar o outro pode funcionar como uma forma de:

  • reduzir ansiedade
  • evitar sentir impotência
  • evitar contacto com a nossa própria vulnerabilidade

Ou seja, nem sempre estamos a responder ao outro.

Estamos também a tentar regular algo em nós.


Como começar a mudar este padrão

A mudança não passa por deixar de cuidar ou de ser empático.

Passa por criar espaço interno entre sentir e agir.

E não acontece de um dia para o outro, nem requer passar para o extremo oposto em que já não nos importamos com ninguém.

Alguns pontos fundamentais:

  • Aprender a distinguir responsabilidade própria da responsabilidade do outro
  • Tolerar o desconforto sem agir automaticamente
  • Perguntar: “Isto é meu para resolver?”
  • Praticar limites claros e consistentes
  • Substituir conselho automático por curiosidade: “o que achas que precisas?”
  • Permitir que os outros falhem, aprendam e cresçam

O essencial

No fundo, a codependência não é excesso de amor.

É muitas vezes amor misturado com medo, controlo e responsabilidade exagerada.

E a cura não passa por deixar de se importar, mas por aprender algo mais difícil:
estar com o outro sem o carregar e estar consigo sem se abandonar.

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